A sombra e o monstro

Da janela do meu quarto vejo outra janela, velha, suja, maltratada. Para lá dessa janela, o escuro, o vazio. Alguém dança uma música de baile, num soalho empoeirado, atrofiado por paredes despidas e desprovidas de emoção.

O vestido longo, rodopia, e vai levantando o pó estagnado. O fato preto dele: limpo e muito bem engomado, faz sobressair um focinho bem aparado de uma raposa humanóide. Ele é o monstro dela. Tão perfeito, tão impecável, a fazê-la rodar… a saia do seu vestido lilás desbotado, tão desbotado que parece um rosa gasto.

O escuro envolve-os e o pó também. E lá vão eles, agitando-se ao som de uma melodia surda.

Eu desvio a minha atenção e deixo-os continuar, sós, na intimidade da sua dança.

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