As velhas lutas e as novas vitórias

Antes de começar a fumar, há alguns anos atrás, eu já sabia que o iria fazer… Viciar-me.

Havia um certo interesse e curiosidade no cheiro – agradava-me – nos gestos, na aparente plenitude do acto e na satisfação que conseguia captar das pessoas que eu via a fumar. Parecia fazer sentido e parecia dar prazer.

Não me orgulho de ter pegado naquele primeiro cigarro para experimentar (Lucky Strike – faz-me rir a ironia do nome). Nem no segundo cigarro, exactamente logo a seguir (sim, a moca foi gigantesca!), num acto de revolta e auto-punição consciente. Talvez me quisesse magoar – já o tinha tentado fazer de outras maneiras – como se daí resultasse um mórbido alívio, que superasse a raiva e a solidão que sentia no momento em que o fiz. Uma atitude mortal e mortífera, que estranhamente procurei para me sentir viva. Para sentir algo, lembro-me bem disso.

Foram anos da minha vida em que esse vício coexistiu comigo, em mim, e juntos passámos por muitas fases, sensações, sentimentos e pensamentos. Momentos. Um relacionamento de amor-ódio, que quanto mais tentava negar, mais agarrada ficava. Que demorei muito tempo a assumir, mas acabei por me render a ele. Constante luta, constante entrega.

Foram algumas as tentativas de terminar esse relacionamento. Não muitas, mas existiram.

Pelo tempo afora e porque sou convicta na frase “mens sana in corpore sano” – confiei que um dia iria conseguir dar a volta a esta situação e a maneira como optei para a resolver, foi ir ao encontro da sua causa mais profunda, dentro de mim, e sanar não o vício, mas a causa dele. Porque é que eu o fazia? Que carências carregava dentro de mim? Que medos? Que emoção tinha despoletado essa dependência?

Tudo isto foi um longo processo. Lento. Ele próprio doloroso. Muitas lutas internas, muitos pensamentos e lágrimas também, mas para mim, este processo foi (e é) altamente necessário, importante. Sempre fui da opinião que os problemas devem ser resolvidos na raíz, e não apenas na superfície. É isso que eu faço: vou à raíz.

A dada e feliz altura, comecei a sentir que esse registo já nada tinha a ver com a pessoa que sou, neste momento (este, que tanto desejei) – depois de me ter afundado em mim, vasculhado, trazido à luz a consciência e trabalhado-a. Já não fumo há algum tempo e não sinto necessidade.

A vida é bela e é maravilhoso como tudo resulta. A luta é diária. Não dá para vacilar, mas agora sinto a diferença: que quando o pensamento vem, essa voz longínqua, esse desejo de pegar novamente no vício, eu paro e saboreio o aqui e agora, maravilho-me e sinto em pleno a beleza daquilo que tenho perante mim: seja uma bonita paisagem, um céu inspirador, uma refeição saborosa, uma companhia boa…. paro e atentamente entrego-me à beleza do momento e à magia de Ser, plena e saudável. De gostar de mim própria e não querer magoar-me ou punir-me.

Porque vícios há muitos, é preciso estar atento e acima de tudo: é preciso apreciar a Vida e o nosso Ser, com tudo aquilo que isso significa. Amarmo-nos.

Acho que é desta! Estou a lutar por isso… um dia de cada vez.

Aurora Buzilis

“Confront the dark parts of yourself, and work to banish them with illumination and forgiveness. Your willingness to wrestle with your demons will cause your angels to sing. Use the pain as fuel, as a reminder of your strength.” – August Wilson

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One Comment Add yours

  1. Go girl!
    Há Lucky strikes que não valem a pena 😉
    Sweet kisses,
    Amira Amora

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