A demonização do erotismo e a negação da essência

“Originalmente, Lilith não era uma figura demoníaca; podem encontrar-se os seus traços numa deusa suméria denominada Senhora dos Animais, representada sob a forma de uma coruja. Lilith simboliza o aspecto sombrio da grande deusa das antigas religiões pagãs na sua forma de femme fatale ou encantadora. Este aspecto feminino foi sempre rejeitado pelas culturas patriarcais, cujo puritanismo sexual o transformou num símbolo demoníaco, por serem incapazes de lidar com as poderosas energias eróticas que lhe estão associadas.”

– in Sociedades Secretas de Michael Howard | Nova Vega, 1a edição (2013) –

Por exemplo!… Uma visão interessante e que de certo modo também toca a (Cabala) história de Lilith ser a primeira mulher de Adão (e Eva a segunda), que se insurgiu, afirmando que era sua semelhante, que não tinha de se colocar sob ele, de ser ela a abrir-se para ele, numa posição de submissão. Um aborrecimento que tratou de ser corrigido pela criação de Eva (mas mesmo assim Lilith conseguiu regressar na forma de serpente (é fodido)… Histórias há muitas e esta é bem conhecida.

A humanidade é complexa e tortuosa demais, criativa em modos de ignorar e esconder o desconhecido, logo, os medos. De aniquilar qualquer tentativa de equilíbrio e de auto-expressão individual. Há-que controlar as massas – religião, política – dogmas, fanatismos, tabus, jogos de poder…. estes, chegam a todo o lado.

2013 anos não são nada perante todo o resto. E o mais curioso foi o crescente afastamento do Divino (por assim dizer), da fé, do sonho – chamem-lhe o que quiserem –  apregoando-se precisamente o contrário. E o que foi que obtivemos? O homem foi afastado da mulher, ambos afastados dos semelhantes, por sua vez afastados do divino, logo afastados de si próprios e da Natureza… Não deixa de ser triste.

Seria fácil divagar agora por todo o percurso da história, nas várias vertentes e correntes de pensamento, mas no fundo este post é sobre a energia feminina nas mulheres. Ser homem não é fácil, porque eles próprios têm os seus legados genéticos a superar, inclusive assumir a sua própria energia feminina, mas ser mulher também não é fácil.

Em jeito literal de carpir mágoas, carregamos nós mulheres, um peso milenar, um legado que nos acompanha em prol de uma sociedade patriarcal, desequilibrada e tendenciosa. Carregamos isso nos nossos genes e aqui digo um segredo, que é a minha opinião: nem nós sabemos muito bem o que fazer com este lado que nos ensinaram a esconder (como diz na citação, aspecto sombrio uuuhhuuuh).

Do ponto de vista económico e profissional: só o facto de carregarmos uma vida durante 9 meses e termos licença de maternidade, nos coloca numa posição claramente inferior e de desvantagem, quando deveria ser no mínimo o contrário. As mulheres têm de optar, abdicar, adiar, esquecer… e que mesmo hoje em dia, em cargos profissionais iguais, com o mesmo perfil, a mulher receberá sempre um ordenado inferior ao homem. O poder do pénis, hein?

Voltando atrás às energias eróticas e ao arquétipo feminino: o sexo e a energia sexual são ainda vistos como assuntos sensíveis, tabus e não é pouco frequente, alvo de gozo fútil e piadas nervosas. Uma coisa é rir natural e levemente, outra coisa é fazer piadas imbecis que mostram claramente ignorância e insegurança, ou simplesmente banalização, peço desculpa, mas é um turn off! Vamos nos virar para dentro e observarmo-nos perante estas e outras situações. É normal fazê-lo: certo! E tem de se começar por algum lado – verdade! Mas por favor, manter o mesmo registo uma vida inteira, sem humildade na aprendizagem e vontade de evoluir, é no mínimo uma prova de falta de inteligência e ausência de um propósito de vida. De aproveitar a vida! Essa dádiva. Mas adiante…

Sexo = satisfação do EGO (ponto) – Um registo da demonização. Será? Olhar para as mulheres como objectos mais fracos é deprimente e redutor, as mulheres acreditarem nisso, é … falta de auto-estima e resignação?… Traumas? Não sei…. Há trabalhos internos a fazer.

A energia sexual poderá remeter-nos, além do óbvio, para a força criadora, para a vitalidade e sobrevivência. Fome de VIVER! Para a união e partilha. Para o respeitar e desfrutar. Sentir. Tudo o que faz parte da nossa essência, nós mulheres. Houve muita coisa que fechámos a cadeado dentro de nós, ao longo de todos estes tempos. Lilith é uma parte de nós sem filtros, nem medos, num sentido muito mais abrangente do que o óbvio. Num sentido mais profundo.

Uma força que existe e com a qual ninguém sabe muito bem lidar. A força amante, a força que nos liga à terra e ao céu, a todos os nossos semelhantes, animais e elementos da natureza. Fechar esta maravilha, será solução?

Penso que é necessário o despertar e que começar pela aceitação, perdão e cura interna, poderá bem ser o caminho. Ou não!…. Seja o que for que servir para cada uma de nós. (Again: falo nas mulheres, mas serve também para os homens).

Ou seja, enfrentar! E enfrentar o inevitável! Porque é inevitável. Sem medo, ou com medo, mas a borrifar para ele, com Amor.

No fundo, acredito na necessidade de equilibrar forças (masculina e feminina), assumir ambas e lidar com elas naturalmente. Livremente, naquilo que elas representam para cada um de nós. Sem jogos de forças e poder, mas humildade e verdade.

Utópico? Pessoalmente, se eu acredito nisso, para mim não é utópico. É uma das vertentes do caminho para a minha unidade interna. Para conciliar dualidades e encontrar uma paz mais presente.

Aurora Buzilis

Nota: As palavras são veículos de expressão que adoro, as interpretações cabem a cada um que as lê ou ouve. Eu apenas vou lançando as minhas sementes, enquanto esvazio a minha ávida mente. A minha sanidade depende disso. Este blog é uma acha na fogueira da minha libertação, que tenho um enorme prazer em partilhar com quem aqui passa, e claro está, comentários e partilhas de ideias são sempre bem vindos.  🙂

ni santas

“O nosso inferno pessoal está nas profundezas do nosso corpo, na cavidade pélvica, onde a nossa sexualidade é agrilhoada. Lá estão as raízes da nossa verdadeira espiritualidade, a base da corrente da kundalini. É no útero que a vida começa e onde experimentamos pela primeira vez o contentamento do paraíso.” (Alexander Lowen).

2 Comments Add yours

  1. Olá querida 🙂

    adorei este post e a frase de Alexander Lowen.

    Curiosa a hipocrisia, pois os homens não nascem nas árvores, são paridos por mulheres!
    Alguns crescem e vão fazer tudo o que acima referes.
    E todas nós somos mulheres, filhas, mães, irmãs, sobrinhas de alguém.

    Acredito que é medo, medo do feminino, do desconhecido e misterioso que habita em nós.
    Cabe a cada mulher no seu microcosmos agir de acordo com a sua essência e verdade.

    O equilíbrio entre o masculino e feminino dentro de cada um de nós será alcançado.

    Foste de vvvvaaacccaaacciiiionnnnneeesss?

    Há uns post’s atrás fiquei com a ideia que tinhas ido passear! Hope so!

    Beijos mkk

    1. Obrigada querida! 🙂 beijooooooooooooos ❤

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