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  1. Sem ternura
    sem pureza
    não grito a tua morte apenas violenta
    a tua morte apenas violenta ecoa em mim
    e já não existo senão escuro e tremo
    um pobre corpo atemorizado um coração de vazio
    e a vergonha de não ter lágrimas e a ignorância
    Estou mais razo do que tu, poeta, a uma mesa de café
    mais morto mais falso mais nojento do que tu
    e disfarço o silêncio e naturalmente continuo na vida
    e rio e fujo e não consigo enterrar-te
    não consigo chorar-te
    porque o horror violento me desenha o corpo
    Tiraste-me a vida e quase te odeio poeta
    a minha morte teria sido muito mais insignificante
    a minha morte teria sido mais justa
    É esta ideia que te não perdoo, esta ideia horrorosa que bebo
    esta ideia de que não mereço a tua morte
    porque não mereci a tua vida
    O que eu odeio é não te ter amado
    o que eu odeio é a minha pobre vida e a minha culpa
    o que eu odeio é ter ficado
    Deixaste-me a responsabilidade tremenda de sobreviver-te
    e por isso te amo e por isso descansa, poeta!

    António Ramos Rosa

    Fábrica de Escrita

    1. UAU! obrigada! 🙂 esse poema é um tormento maravilhoso tive de ir saber mais dele. ❤
      A morte.
      Falo da morte como quem fala do desapego. De largar tudo o que foi construído em moldes que não eram meus. A morte de tudo aquilo que não se adequa ao que sou na minha essência: largar emoções, pensamentos, crenças, relações, etc…. Morrer para renascer na verdade. 🙂 é esse o caminho que um dia pensei fazer e cá estou eu 😉
      O amor.
      Falo no amor incondicional. Falo no meu sonho de amar a humanidade.
      (yes I'm weird)
      beijooooooos

      1. Por acaso, agora que vi, em que contexto se trata o poema, pensava que se tratava mesmo de uma morte figurada, essa tal do desapego. 🙂

  2. Victor Hugo diz:

    Essa morte será um derradeiro renascer.
    Mas reparo também que não será uma morte imediata; uma morte súbita! Será uma morte progressiva, num caminho onde te livrarás de esquemas e genes e memórias que não fazem parte da tua essência. Mas que luta interior! Imagina como seria essa luta representada num quadro! Uma luta entre a história do Homem, culturas e tradições, com a tua vida bem à margem das memórias que sentes que não fazem parte de ti. Mas é bom teres noção dessas memórias do passado do Homem, porque identificam-te não pela semelhança mas pela dissemelhança. ‘A’ não é igual a ‘B’. É nessa alteridade, na pluralidade e na diversidade onde te encontras e onde te constróis com pilares fundados na verdade. Mas que luta! E como é um caminho, estás já aí, nessa guerra de contrariedades, e onde procuras esse amor incondicional. Outra luta pela paz de espírito. Aceitação.
    Uma vez, num programa que ia para o ar na RTP 2, com a Paula Moura Pinheio, o “Câmara Clara”, foi convidado o escritor Valter Hugo Mãe. E nunca mais me esqueço de ele distinguir, muito sobriamente, aceitar e tolerar.
    Tolerar parece que lhe está pegado uma certa altivez e superioridade, como se o sujeito que tolerasse fosse de algum modo superior aos outros. Tem aqui um certo tom de punição, embora disfarçado de um modo “aristocrata”. Como se estivesse a fazer algum favor ao outro, tolerando, dessa forma, a acção “errada” aos olhos do sujeito (pensemos onde cabe na história do homem o erro e o certo).
    Já aceitar remete-nos logo para braços abertos: eu não tolero; aceito-te como és. Há aqui um principio de respeito, mesmo que essa pessoa tenha “errado” (o que raio é errar????). A humanidade é estruturada em “erros” – espreitai a carta dos direitos do Homem, e a carta dos direitos humanos. Acordos, regras, concordâncias, igualdades… etc etc etc. Tudo muito normativo e regularizado.
    Tudo isto porque parece que há uma semente do mal dentro de nós. Foi necessário os nossos antepassados criarem regras e princípios para normalizarem os genes, agrupando-nos e igualando-nos com base nessas normas. Mas parece que não funciona bem. A nossa história está cheia de crueldades. É bastante sangrenta. Muito territorial! Mas também uma história de sobrevivência. Muitos dos nossos antepassados lutaram por o que temos hoje, Outros, lutaram pelo totalitarismo e poder.
    Percebo quando afirmas que queres amar incondicionalmente a humanidade. Aceitá-la tal como ela é, tal como alguém aceita um louco na sua vida com as suas neuroses e derivados. A humanidade precisa de psicanálise e livrar-se de muitas memórias e genes e tradições e hábitos e traumas. Não sendo possível um psicólogo à escala cósmica (acho eu!!), segues tu esse teu percurso de desapego e limpeza.
    Mas que luta!
    Adoraria vislumbrar um quadro…

  3. Hmmm interessante….

    Sim, sigo esse caminho, porque há muito tempo atrás percebi que tentar mudar o que se passa à minha volta, só poderia acontecer se eu começasse por mudar aquilo que se passa dentro de mim. E porque o meu desejo por paz interior sempre foi, desde que me conheço como gente, imenso.

    Uma vez, era eu pequenita, escreveram-me num papel algo que me marcou e me deixou a remoer na altura…esse papel está guardado : “ter serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar, coragem para mudar as coisas que eu posso, e sabedoria para saber a diferença.”

    Algo assim, penso que é da biblia cristã. …. Mas é isso. Mal sabia eu na altura o quanto essas palavras eram certas na minha experiência de vida. A aceitação é a minha “grande baleia branca” (do momento) – uma grande luta consciente, sim. A work in progress. sei que vou conseguir, porque quero consegui-lo. Uma questão de tempo e paciência. Aliás, já estou a conseguir de certo modo, numa escala pequena.

    Confesso que agrada a ideia de ter um psicanalista à escala cósmica. faz-me rir! eheheheh Um Freud Cósmico. uuiii!!!! 😀 e do quadro que falas.

    Obrigada pelas tuas palavras V ❤ e já agora… Será que A não é mesmo igual a B?… 😛

  4. Victor Hugo diz:

    Sem demora poderia aplicar aqui a definição de identidade pensada por Aristóteles, no seu «Organon». Ele não diz que tal e qual que ‘A’ não é igual a ‘B’. Diz antes que ‘a=a’, que ‘b=b’; e mesmo que haja um proposição a denotar ‘a=b’, ainda se pode afirmar que ‘a=a’, ou que ‘b=b’. Pode existir entre ‘a’ e entre ‘b’ semelhanças, ou participações de espécie.
    Não há, nem pode haver, qualquer tipo de confusão entre ‘a’ e entre ‘b’. E repara: vamos pensar como é que identificamos os objectos reais. Eles têm determinadas características, a que Aristóteles chamou de Categorias, e que mais tarde Kant também as acolheu e acrescentou umas tantas mais – as Categorias são como que características que se apreendem pelos sentidos e que identificam um objecto ou um fenómeno. Deve-se perceber que isto acontece ao nível da realidade, ou seja, tudo o que se pode apreender sensorialmente. Se perguntássemos às coisas: “O que és?” – elas responder-nos-iam categorialmente, ou seja, apresentar-nos-iam um rol de características que as definiriam a modo de nós entendermos, ou seja, compatível com a nossa “máquina cognitiva”. Porque podemos perfeitamente pensar que o que recolhemos da realidade é uma informação que é filtrada pelos nossos sentidos e pelo nosso entendimento. Kant disse que a realidade é um caos, e que o Homem ordena-a e organiza-a através do entendimento (isso implica que há já em nós essas categorias – ele diz que elas são “a priori”). Havendo filtros, e categorizações a priori, etc etc, o que resta? Há mais para conhecer? Que mais pode conhecer o Homem com os seus 5 sentidos e instrumentos científicos? O limite da ciência é o limite do Homem.
    Mas já me estou a desviar do assunto Mor (fica para outra oportunidade)!
    Onde quis chegar com isto tudo, é que tu não podes ter um objecto ‘a’ e um objecto ‘b’ a ocupar o mesmo espaço. Porque a categoria do espaço é organizadora do real. Nada pode existir no mesmo espaço ao mesmo tempo, logo, por aqui pode-se distinguir ‘a’ de ‘b’ porque ambos não podem co-existir no mesmo ponto espacial. Podem existir ao mesmo tempo, mas em pontos espaciais diferentes. Imediatamente distingue-los sensorialmente, e percebes que, por exemplo, duas flores aparentemente iguais, porque são da mesma espécie, são diferentes, porque não são o mesmo fenómeno.
    Por isso, A não pode ser igual a B. Podemos considerar participações, ou extensões, etc etc, mas um fenómeno é integro e não se confunde com outro fenómeno. Tudo o resto, ao nível da realidade, que se possa tomar e considerar poderão ser alucinações, ou outra anomalias (neuroses, esquizofrenias…), que deturpem a informação recolhida – e isso é, também, outra história.

    NOTA: O que escrevi em cima é uma interpretação; um ponto de vista. Estou de acordo, mesmo, que A não é igual a B. Parece-me óbvio. Os fundamentos que usei fazem parte da história da Filosofia; da história do pensamento do Homem; embora tenha utilizado de um modo critico. Isto é outro problema: a história do pensamento e do conhecimento e a constante utilização do fundamento. Académicamente e eruditamente o fundamento é essencial, como se o nosso pensamento fosse coxo e aquele fosse a bengala deste. A verdade é que ajuda-nos a pensar, mas pode travar o pensamento original. E acho importante, muito importante mesmo, conhecer a história do nosso pensamento e do nosso conhecimento. Acho fascinante essa arqueologia do saber e da Filosofia.

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