A linguagem do invisível

Tenho andado com a sensação acesa de que não me reconheço. É arrebatador sentir a mudança enorme que operei em mim e seus resultados, nas várias situações que se colocam à minha frente, surpreendo-me com o modo com que lido com essas situações. Ainda me surpreendo, mesmo não sendo a primeira vez que me acontece pensar assim. Talvez. Posso relatar vários momentos de mudança ao longo da minha vida, mas penso que nunca foi tão vivo na consciência como agora. As situações agora são também mais intensas e responsáveis. Mas chega a assustar-me. Chego a pensar que ando a perder qualidades. A idade muda muita coisa, é certo, mas não é por aí. É e não é. É muito mais, porque até mesmo com a idade, há pessoas que escolhem viver sempre da mesma maneira, sempre com as mesmas crenças e a sabedoria que devia surgir, perde-se pelas emoções fáceis, consequentes das manobras dos dias que passam e dos truques da mente. Sim, do ego. Mesmo quando ele se esgueira pela porta das traseiras, que é como quem diz, se mostra camuflado. As aparências iludem. Adiante. E então… Morri e renasci. Morri e renasci. E outra, e outra vez. Viver para mim chega a ser tão matemático e lúcido que se torna cansativo. Há momentos de cansaço. Estou em transição, tenho estado. Sou a carta da Morte e levo-a comigo, e espalho-a, onde quer que vá. Às vezes suavemente, outras vezes de modo bastante abrupto. É uma fase, eu sei. Talvez não. Talvez seja de mim. Não, eu não ando a perder qualidades, sou indisciplinada e sou mais do que cabe nas costuras da pele. O confronto dá-se aí : na pele. Ando a perder o que tenho de perder, para dar espaço àquilo que tenho de despertar. Ser. Àquilo que Sou. E sei exactamente o que sou e o que estou aqui a fazer, por muito que seja difícil estar aqui. Difícil para mim ou para os outros?… E fico maravilhada com todo este processo. Tão verdadeiramente maravilhoso. E entrego-me a ele. Tento, pelo menos. Perdem-se uns pesos, ganham-se outros, e tudo bate certo e aceito humildamente o que plantei para mim e arranco, e morro e volto. E tenho um pé aqui e outro pé em tantos outros sítios. E vivo com o constante desejo de isolamento meditativo, ao mesmo tempo que não o faço, porque não quero isso agora para mim, mas carrego no peito sempre essa vontade, que não será concretizada nesta vida. Ou talvez seja. Até porque é tão mais estimulante confrontar-me com aquilo que à partida me faria apetecer fugir. E agora que estou diferente, muito mais estimulante se torna. Estou aquilo que um dia quis estar, virando-me do avesso, sou agora aquilo que um dia desejei ser. E tudo isto começou porquê?….. Nem sei. … Ah! Porque não me reconheço. Acho que tenho de me descobrir mais uma vez. É isso.

Há muitas coisas que quero ainda fazer e experienciar, para ver como reajo, para sentir o prazer de sentir tudo aquilo que tenho de sentir.

Nas palavras de Rainer Maria Rilke cujo aniversário de nascimento é justamente hoje, dia 4: “Como suportar, como salvar o visível, senão fazendo dele a linguagem da ausência, do invisível?”

E é essa a equação.

Aurora Buzilis

Arte | Light & Shadow @ Kumi Yamashita
Arte | Light & Shadow @ Kumi Yamashita

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