Perfeitos desconhecidos

Caminham ambos, vindos de direcções opostas, indo na direcção um do outro. Perfeitos desconhecidos.

Guiados pela mesma vontade inexplicável de atravessar a ponte para o lado de lá, caminham. Numa solidão introspectiva e desejada, por aí vão de cabeça baixa, imbuídos nos seus pensamentos de insatisfação e rebeldia. Algo drástico deveria acontecer nas suas vidas – sem saber, ambos pensam o mesmo. Sem se conhecerem. Querem algo drástico nas suas vidas! Algo que os faça acordar, faça sentir… sentir! Vibrar!

O marasmo no qual se encontram e a rotina cristalizada do dia-a-dia “mais do mesmo” chegaram ao ponto de saturação e ambos anseiam por algo que venha derrubar tudo aquilo que conhecem como certo e mudar numa viragem completamente sinuosa e desafiante o rumo das suas vidas.

À medida que caminham a passos rápidos e esquecidos, nem sequer tomam atenção ao cenário mudo pelo qual se movimentam. Dentro deles tudo é tão intenso e explosivo, que quase se sentem a levantar voo, com asas criadas pela força do querer. Nem se apercebem na agitação, nas outras pessoas, na cidade que acontece e os movimentos que se desenrolam à sua volta.

Caminham… Caminham… e de repente surge a ponte! A ponte que une as duas margens do rio que penetra e se difunde, cidade adentro, embelezando-a e criando a oportunidade de florescimento de vários parques e lugares de lazer. Zonas férteis que contrastam com o cinzento dos edifícios e a urgência das correrias cegas. Inspiram profundamente e expiram longamente. Ainda se lembram de como o fazer…  Seguem-se alguns momentos de contemplação.

As pontes significam a transição, a passagem, criação de laços. Mudança!? – procuram eles mentalmente – e apercebem-se, em jeito de epifania brejeira, de todo o simbolismo do seu pensamento recorrente de ir à outra margem. De atravessar a ponte para o outro lado, sem qualquer tipo de objectivo ou meta, senão o de remoer na cabeça todos aqueles sentimentos aflorados de emoção e depois!…. Depois remoer mais, até encontrar algo. Algo drástico. Mas a ponte… A ponte era a representação tangível dos seus desejos mais profundos.

De sorriso no rosto e numa atitude de esperança que aquela visão lhes provoca inusitadamente, elevam ambos, perfeitos desconhecidos, o rosto e caminham lentamente pela ponte, cada qual indo do seu lado, apreciando cada momento e projectando essa brilhante sensação no futuro que pretendiam, sendo interrompidos apenas pelo olhar forte e familiar de um estranho, que de repente se cruza com eles e os faz arrepiar… Ela olha-o e ele a ela. Perfeitos desconhecidos cruzam-se no meio da ponte e olhando-se nos olhos, fortes, profundos, familiares, se atraem e sorriem cúmplices, e assim, num misto de surpresa e de eternidade, se deixam ficar, na entrega de um olhar reflectido, que se separa apenas para se prolongar num entrelaçar de mãos.

Aurora Buzilis

Fotografia Christopher Etchells
Fotografia Christopher Etchells

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s