Pelas Brumas de Avalon

“O lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos”

“… pois como os druidas sabem, é aquilo em que a humanidade acredita que modela o mundo e toda a realidade.”

mists

Os livros que leio chegam até mim por enquadramento directo com a fase, consciência e interesses do momento em que me encontro. Regra maior não os procuro muito, eles encontram-me e tudo encaixa. Tudo está em concordância e se integra no meu processo pessoal de evolução e auto-conhecimento. Foi, deste modo, que não me fazendo sentido ter lido as Brumas de Avalon anos atrás quando me passaram pelas mãos, me fez sentido lê-las agora. Fi-lo e efectivamente caiu que nem ginjas… ou que nem brumas.

Para começar, ler Marion é sempre um prazer e um ensinamento, não só a nível da ficção, mas também a nível de todo o resto que se entende ao ler os seus livros… excepcional trabalho de pesquisa em temas não muito fáceis de serem pesquisados, coerência de ideias, semântica, perfis irrepreensíveis das personagens, fluência da escrita, amor, entrega, sensibilidade, etc.

As Brumas de Avalon concentram em si a visão feminina da lenda do Rei Artur contada em jeito de “viagem” por Morgana,  que me transportou apaixonadamente por entre gerações, vivências e turbilhões mentais, reflexos de uma Bretanha agitada (num misto de real e lendário), em  suas batalhas desesperadas pela propriedade e  identidade  (a todos os níveis) e pela sobrevivência, onde notei principalmente o impacto dos costumes religiosos e crenças profundas, que num descolar doloroso fizeram  mover todas as estruturas base, direccionando o rumo da História.  Sendo característica literária, inevitavelmente o meu coração retombou forte sobre o universo feminino na obra e a sua movimentação por entre o esburgar que a autora ia fazendo ao enredo, à medida que este ia avançando.

“A magia é um caminho desconhecido, assim como a escuridão da noite. E ao mesmo tempo assustadora, tornando-se um desafio para renunciarmos aos nossos medos e mergulharmos neste mundo secreto, que quanto mais se caminha, mais se descobre o que há por trás da penumbra. A bruxaria é um mundo oculto pelas sombras da noite, em que só a bruxa, por si própria, poderá descobrir o caminho certo, confiando na sua eterna aliada, a lua, que é a luz da Deusa. Uma bruxa acomodada jamais será sabia, porque o conhecimento oculto não é recebido e sim procurado. O segredo é confiarmos na luz interior que nos guiará adiante no caminho da procura, que começará neste momento, nesta noite de iniciação.”

A magia…  e muitas emoções à flor da pele. Ressoou completamente e posso mesmo dizer que foi como se tivesse ido ao encontro de partes minhas, perdidas no tempo e no esquecimento. Mexeu, agitou águas, reflexões. Algumas vezes revoltei-me, outras vezes lágrimas corriam pelo rosto, outras vezes sorria. Foram mais as vezes que me revoltei, devo dizer. Porque no fundo o que mais apreciei e mais me custou ler, foram os processos mentais das variadas personagens e as suas acções, respostas… As escolhas, o certo e o errado, a abnegação, a luta entre o que se sente que se quer fazer e o que se é mandado fazer, o questionamento, os sacrifícios, o poder.

É tocante ver aqui e reflectir sobre o quão manipulável é o ser humano (pelos outros e pelas suas próprias crenças) – em sua polarização interna e procura de verdades concretas e absolutas como meio de validação da sua existência e criação de caminho seguro perante a enormidade que é o desconhecido e a própria mortalidade.

“Os cristãos procuraram acabar com toda a sabedoria que não fosse a sua, e na luta para conseguir isso, estão banindo do mundo todas as formas de mistério, exceto as que se harmonizam com a sua fé religiosa.”

O final (não muito spoiler)…

Olhando para trás toma-se consciência que mais importante que a chegada, é o caminho que se faz e que aí na chegada | seja o final | tudo está como deve estar.

“Avalon estará sempre ali para todos os que puderem buscar o caminho, por todos os séculos e além dos séculos. Se não puderem encontrar o caminho de Avalon, isso talvez seja um sinal de que não estão prontos para isso.”

Aurora Buzilis

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Morgana fala…

 

“Em vida, chamaram-me de muitas coisas: irmã, amante, sacerdotisa, maga, rainha. O mundo das fadas afasta-se cada vez mais daquele em que Cristo predomina. Nada tenho contra o Cristo, apenas contra os seus sacerdotes, que chama a Grande Deusa de demônio e negam o seu poder no mundo. Alegam que, no máximo, esse seu poder foi o de Satã. Ou vestem-na com o manto azul da Senhora de Nazaré – que realmente foi poderosa, ao seu modo –, que, dizem, foi sempre virgem. Mas o que pode uma virgem saber das mágoas e labutas da humanidade?

E agora que este mundo está mudado e Arthur – meu irmão, meu amante, rei que foi e rei que será – está morto (o povo diz que ele dorme) na ilha sagrada de Avalon, é preciso contar as coisas antes que os sacerdotes do Cristo Branco espalhem por toda parte os seus santos e lendas.

Pois, como disse, o próprio mundo mudou. Houve tempo em que um viajante se tivesse disposição e conhecesse apenas uns poucos segredos, poderia levar sua barca para fora, penetrar no mar do Verão e chegar não ao Glastonbury dos monges, mas à ilha sagrada de Avalon: isso porque, em tal época, os portões entre os mundos vagavam nas brumas, e estavam abertos, um após o outro, ao capricho e desejo dos viajantes. Esse é o grande segredo, conhecido de todos os homens cultos de nossa época: pelo pensamento criamos o mundo que nos cerca, novo a cada dia.

E agora os padres, acreditando que isso interfere no poder do seu Deus, que criou o mundo de uma vez por todas, para ser imutável, fecharam os portões (que nunca foram portões, exceto na mente dos homens), e os caminhos só levam à ilha dos padres, que eles protegeram com o som dos sinos de suas igrejas, afastando todos os pensamentos de um outro mundo que viva nas trevas. Na verdade, dizem eles, se aquele mundo algum dia existiu, era propriedade de Satã, e a porta do inferno, se não o próprio inferno. Não sei o que o Deus deles pode ter criado ou não. Apesar das historias contadas, nunca soube muito sobre seus padres e jamais usei o negro de uma de suas monjas-escravas. Se os cortesãos de Arthur em Camelot fizeram de mim este juízo, quando fui lá (pois sempre usei as roupas negras da Grande Mãe em seu disfarce de maga), não os desiludi.

E na verdade, ao final do reinado de Arthur, teria sido perigoso agir assim, e inclinei a cabeça à conveniência, como nunca teria feito a minha grande Senhora, Viviane, Senhora do Lago, que depois de mim foi a maior amiga de Arthur, para se transformar mais tarde em sua maior inimiga, também depois de mim.

A luta, porém, terminou. Pude finalmente saudar Arthur, em sua agonia, não como meu inimigo e o inimigo de minha Deusa, mas apenas como meu irmão, e como um homem que ia morrer e precisava da ajuda da mãe, para a qual todos os homens finalmente se voltam. Até mesmo os sacerdotes sabem disso, com sua Maria sempre-virgem em seu manto azul, pois ela, na hora da morte, também se transforma na Mãe do Mundo.

(…)

A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada que conduz a Avalon: o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos, e, talvez, no fim, chegaremos ou à sagrada ilha da eternidade, ou aos padres, com seus sinos, sua morte, seu Satã e Inferno e danação… Mas talvez eu seja injusta com eles. Até mesmo a Senhora do Lago, que odiava a batina do padre tanto quanto teria odiado a serpente venenosa, e com boas razões, censurou-me certa vez por falar mal do deus deles. “Todos os deuses são um deus”, disse ela, então como já dissera muitas vezes antes, e como eu repeti para as minhas noviças inúmeras vezes, e como toda sacerdotisa, depois de mim, há de dizer novamente, “e todas as deusas são uma deusa, e há apenas um iniciador. E cada homem a sua verdade, e Deus com ela”.

Assim, talvez a verdade se situe em algum ponto entre o caminho para Glastonbury, a ilha dos padres, e o caminho de Avalon, perdido para sempre nas brumas do mar do Verão.

Mas esta é a minha verdade; eu, que sou Morgana, conto-vos estas coisas…”

in Prólogo, As Brumas de Avalon

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