Sempre amei o Saber

teano
*texto retirado do livro de Clara de Almeida – Numerologia Kármica_Pergaminho*

*Texto transcrito*

O meu nome é Teano. Nasci em Crotona, numa época a que agora chamam o século VI a.C.

Crotona era uma cidade linda, cheia de árvores de fruto que enchiam o ar de aromas em amenas Primaveras floridas. Sempre amei o Saber. Quando era menina, gostava de estar sozinha para pensar. Quando me perguntavam em que pensava, não sabia como responder. Como explicar às pessoas crescidas que olhava o céu e queria saber o que estava para lá dele? Ou que olhava uma árvore e me perguntava como teria ela surgido? As explicações que me davam de que tudo era vontade dos deuses não eram suficientes.

Afortunadamente para mim, os meus pais eram pessoas cultas e ricas: o meu pai era um homem de personalidade forte e bastante poderoso, governador da cidade. Crotona tinha sido fundada por antepassados nossos que tinham vindo da Acaia (nome antigo para a região que agora conhecemos como Grécia) à procura de melhor vida. Esta região era muito rica porque era banhada por dois rios e a produção de cereais tornou-se a nossa maior riqueza.

Embora naquela época não fosse comum as mulheres estudarem, a minha mãe sabia ler e muito cedo me fez perceber que esse era instrumento determinante para poder ter acesso ao Saber antigo, pois estava à disposição de quem o sabia decifrar através da leitura.

Os meus pais tinham o hábito de reunir em casa com muita frequência as pessoas mais cultas da região. Esse hábito acabou por ser conhecido noutras cidades e a nossa casa tornou-se um centro cultural importante, onde grandes mestres iam passar temporadas.

Assim, cresci no meio de muita gente sábia e um dos meus maiores prazeres era o estudo. Os meus pais proporcionaram-me grandes professores, que me ensinaram música, astronomia, medicina, física, psicologia e geometria. A certa altura da minha vida dediquei-me a estudar psicologia infantil, pois o mundo das crianças, do qual tinha saído há pouco tempo, encantava-me. Acabei por escrever uma compilação das minhas reflexões, observações e estudos, e os meus pais, com grande orgulho, reuniram muitos sábios ilustres para me ouvirem dissertar sobre as minhas conclusões. Fui muito aplaudida e senti que havia sinceridade nesses aplausos, embora o meu pai fosse o grande mecenas e eles lhe estivessem gratos pelo seu apoio. Encorajada pelo sucesso, continuei os meus estudos e investigações, até que um dia conheci Pitágoras.

Pitágoras era considerado um dos maiores sábios da nossa época, cuja fama se estendia por muitas partes do mundo. Ele tinha viajado muito e vivido uma vida aventurosa. Fora de casa durante muitos anos, quando regressou a Samos, sua terra natal, encontrou tudo diferente e não gostou do que viu. Assim, decidiu procurar um novo lugar e o meu pai, sabendo disso, enviou um emissário para falar com ele, oferecendo a nossa casa como seu lar e convidando-o para ser meu mestre. Ele aceitou prontamente e viajou até Crotona. Quantos serões fantásticos nós passámos, ouvindo-o a contar as suas aventuras! Pitágoras discursava todas as noites no pátio da nossa casa, falando de tudo o que tinha estudado e visto. (…)

Pitágoras ensinava-me matemática e quanto mais eu falava com ele, mais me apaixonava por esse homem brilhante e genial. Eu tinha pouco mais de 20 anos e ele 60… mas era cheio de vitalidade e a sua mente era tão ou mais fresca que a minha. Não confessei a ninguém esta paixão, mas todas as noites, antes de adormecer, pedia aos deuses que o fizessem amar-me, pois nenhum dos muitos jovens que me cortejavam me interessava.

Por vezes parecia-me que ele me olhava de maneira especial, mas logo a seguir desviava o olhar e chamava-me ao dever do estudo. Durante o resto do dia evitava-me, e à noite, quando discursava no pátio da casa, quase nunca olhava para mim, apesar dos meus aplausos serem vibrantes e o meu olhar demonstrasse o quanto o admirava.

O tempo foi passando e cada vez mais gente vinha para escutar o mestre, até a nossa casa ser totalmente insuficiente para hospedar quem o procurava. Então o meu pai decidiu oferecer a Pitágoras um local fora da nossa casa onde ele pudesse viver e dedicar-se ao ensino, que era de facto o que ele mais queria, consciente de que essa era verdadeiramente a sua missão.

Assim, ele criou uma Escola, à qual começaram a acorrer pessoas de muitos lugares. Todavia para lá entrar era necessário fazer muitos testes e passar várias provas. Depois de admitidos, faziam um juramento e passavam a residir na Escola, cumprindo as regras instituídas. Eu acabei por ir para lá, para poder continuar a estudar com Pitágoras, e tive de me submeter a todas as provas de admissão. Curiosamente, muitas mulheres apareceram para se juntar ao grupo, pois Pitágoras achava que homens e mulheres tinham iguais direitos no acesso ao saber.

A vida era calma, os dias corriam serenos e nós vivíamos numa comunidade que privilegiava a fraternidade e a igualdade, embora respeitássemos os mestres, pois a hierarquia do saber tem de ser respeitada.

Pouco depois da minha chegada à Escola, ainda ela estava no início da sua existência, Pitágoras manifestou o seu amor por mim e desvendou o segredo que tinha guardado durante vários meses: que nós éramos almas gémeas e que, sendo parte da mesma Alma matriz tínhamos uma missão a cumprir juntos. Além disso, éramos afortunados, porque podíamos amar-nos e viver como casal. E assim foi. Tivemos uma felicidade perfeita, que foi premiada pelo nascimento do nosso filho Telauges e da nossa filha Damo.

Durante vários anos a Escola cresceu, emanando sabedoria e luz para o mundo, até que dia, dia fatídico, foi recusada a Cílon a entrada na comunidade. Ele passou brilhantemente em todas as provas de acesso, mas quando chegou à prova do carácter, fracassou estrondosamente, pois evidenciou todo o seu egoísmo e mesquinhez.

Cílon nunca perdoou essa humilhação e, à custa de intrigas e mentiras, acabou por conseguir reunir um grupo, que numa noite escura de fatalidade, incendiou e destruiu o edifício da Escola, profanando os locais de estudo e meditação. Todos dormíamos tranquilamente quando fomos despertados por essa brutal invasão. Indefesos, cegos pelo escuro da noite e pela surpresa, não conseguimos defender-nos e todos os que não conseguiram fugir foram trespassados pelas espadas dos furiosos atacantes. Um grupo de alunos veio correndo proteger o seu Mestre e assim conseguimos fugir, deixando para trás a ruína de um sonho.

Chegámos sãos e salvos a Metaponto, mas o meu marido nunca mais foi o mesmo depois dessa noite. Foi envelhecendo e definhando, enquanto nós tentávamos, com a sua preciosa ajuda, recuperar toda a informação que tinha ficado nos escritos destruídos, a fim de garantir que ela passaria para a posterioridade.

Prestes a morrer, reuniu à volta do leito todos os amigos e seguidores, além de mim e dos nossos filhos e pediu-nos que espalhássemos o Conhecimento pelo mundo. As suas últimas palavras foram para mim, sua mulher, sua companheira e sua alma gémea.  “O Amor, Teano, o Amor é Tudo…”

Dediquei o resto da minha vida a cumprir o que Pitágoras tinha pedido, pois essa era também a minha missão.

Passei o legado a meus filhos e deixei a vida, confiante de que as gerações vindouras iriam beneficiar do nosso trabalho e do nosso estudo.

Ao partir, não sabia o que iria encontrar no outro lado do rio do Esquecimento, mas ao chegar junto da barca sabia que iria dizer ao barqueiro:

“O meu nome é Teano e sempre amei o saber.”

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Há coisas que nunca mudam…

Aurora Buzilis 

One Comment Add yours

  1. Julio Oliveira diz:

    Que assim seja e assim será ….

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