O meu Ritmo

Sou rápida por natureza. Se é que se pode dizer que seja da minha natureza!… Mas sempre me conheci assim: rápida. intensa. súbita. inesperada e efémera.

Consequentemente, a minha atenção não deixava de captar o ritmo lento ou mais lento daquilo e daqueles que me rodeavam, achava-lhe uma “quasi” procrastinação que me fazia querer ser ainda mais rápida. Não para ser do contra, mas simplesmente para oferecer o contraste harmonizador, a contrapartida de equilíbrio. Uma escolha inconsciente, um apelo natural que depressa assumi nos primeiros anos de vida, e que tomou forma na impaciência e insatisfação que me brotava do sangue. Da alma.

Além do ritmo lento que me rodeava, a falta de “apetite” inerente, que eu acabava por notar também, era algo que me fazia querer devorar tudo e não perder tempo: as alegrias, as tristezas, as lições, as paisagens, as experiências, as músicas, os encontros, a Vida. Numa impaciência de quem sabe que o tempo urge, que o tempo é finito, de quem sente que tem o tempo contado para se concretizar. Para Viver.

A minha rapidez não me trouxe mais depressa aos sítios, como eu poderia eventualmente desejar. Demorei exactamente o tempo que devia demorar, cheguei sempre nos momentos certos e precisos. Ironias.

Olhando para trás, percebe-se. E percebe-se também que entre os pontos de partida e as metas de chegada, o ambiente mental era de facto o produto ansioso da minha rapidez e era isso que fazia a diferença: se foi o melhor ou pior, o mais fácil ou difícil, não sei. Sei que esse ambiente mental potenciou todas as transformações pelas quais passei até agora. Bem vistas as coisas, se calhar podia ter sido menos dura e menos tortuosa comigo própria. Claramente a minha costela de masoquista.

Mas a idade traz coisas giras e uma delas é a pertinência. Algo do qual continuo a não abusar muito, mas que comecei a utilizar o suficiente para levantar questões mais adequadas.

Os meus anos, foram anos passados a um ritmo que me fazia sentido e me dava o combustível necessário para sentir. Para me sentir. Ou então o oposto! Para não sentir. Para não me sentir. Mas era combustível na mesma.

Mas como tudo muda e nada permanece, cheguei ao ponto em que percebi que o facto de me ter conhecido sempre assim, não significava que teria de continuar a ser assim. Ou já agora, que essa seria a minha verdadeira natureza (apesar de não andar longe disso *risos*).

Dei por mim a reparar, nas mais variadas situações, que as coisas já não faziam sentido dessa maneira e a tentar encontrar um novo ritmo que servisse melhor. E aí comecei a questionar qual seria ele? Qual seria esse novo ritmo? Esse que iria fazer mais sentido na pessoa que sou agora? E eis que começo a brincar, a experimentar, a observar e a sentir.

A rapidez de outrora já não se adequa, disto sei eu. A rapidez e acima de tudo a efemeridade. Esse outrora que serviu num contexto de defesa familiar, social, ambiental, num contexto de foco no exterior já não faz sentido. E de dentro de mim brota um novo ritmo que estou a aprender a reconhecer e a obedecer. Um novo ritmo que me permite sentir de modo diferente. Adequado. Que se apodera da minha impaciência e insatisfação enraizadas, sem dó nem piedade e as sabe domar.

E então constato: nas mais variadas coisas vou descobrindo mundos novos, enquanto brinco à descoberta do meu Ritmo.

Se não devorar, agora saborear e honrar… a comida que como, a música que oiço, os passos que dou, o amor que faço, os pensamentos que tenho, a Vida que aconteço. É um processo milagroso de renascimento, quase, que vou experienciando conscientemente e que me faz todo o sentido e me maravilha.

Adoro, adoro, adoro, este estado humano de constante mutabilidade! E adoro senti-lo! Que tédio seria se assim não fosse.

Ainda não conheço completamente o meu ritmo, mas confesso que estou deserta para que ele se revele.

Só espero que não demore muito tempo!

Aurora

ritmo

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