Thanatos

Não há melhor sítio para reflectir sobre a Vida do que um cemitério.

E se for ao estilo Romântico, ainda melhor!… Sorte tenho eu de ter encontrado um assim, mesmo em plena cidade de Aveiro. Aqui me envolvo de História e de Arte, de um sem fim de pormenores delicados e poéticos, de uma estética inspiradora e uma paz que chega a ser inacreditável. E o fascínio por tantas histórias de vida. De legados, de feitos, de votos, de lamentos, mas também de honrarias, de ancestralidade, de passagem.

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De vez em quando sinto um apelo de ir lá, de ir vagueando em contemplação e em reflexão por entre as lajes. E aquela paz…

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O Encontro da Morte com a Vida. A consciência da linha do tempo pelas vidas vividas, histórias, marcos… Bem representados nas pedras esculpidas delicada e sensivelmente, nas formas detalhadas, nas palavras cuidadosamente pensadas e poesias, no estilo tocante do gótico que propicia a verdadeira reflexão. Ir lá, tal como gostaria de ir ao Père-Lachaise (Paris) ou Cemitério Monumental de Milão ou até ao Highgate em Londres. Há coisas dignas de serem vistas de perto.

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A Morte, um dos mais profundos tabus da humanidade.

Não só a Morte, o Sexo também. Os mais profundos tabus da humanidade.

O esquecimento, a perda de controlo através da entrega total. Tanto na Morte como no Sexo – a extinção do ego. O ego que luta tanto para se fortalecer e prevalecer. A Morte e o Sexo que nos ligam à imortalidade e não à mortalidade. À imortalidade inerente ao espírito. À imensidão da alma e dos seus ciclos. Ao cosmos. À elevação.

okSão milénios de separação, competição, luta de poderes, desigualdades, subserviência e castração, enfim. Milénios de negação dos princípios mais básicos e puros do Ser humano.

A sociedade que vem vindo a abafar a sua energia sexual, que se vai soltando pelas costuras mal arremendadas das condutas rotineiras do dia-a-dia e se transforma em perversões, vazios e realidades distorcidas.

 

O peso da morte, esse, paira em cima das cabeças como nuvens negras, que ensombram e se alimentam, crescem do medo. Medo que cresce por via do esforço de ignorar e na realidade, se torna o chão do caminho a percorrer. Negar o inevitável. O único dado adquirido da equação. E nesta negação há como que uma obsessão macabra que se reflecte nos hábitos mundanos, que se reflecte nos noticiários, que nas horas das refeições passam os dramas e os horrores, e os pobres voyeurs que assistem e alimentam o corpo, a alma e as suas nuvens de mais medo. Que se reflecte no gosto mórbido de só gostar de falar e de saber das desgraças alheias. Ou de alimentar os desaires.

Há uma tempestade constante. A Vida não é vivida e abraçada plenamente, mas antes se torna numa vã fuga àquilo que vai acontecer inevitavelmente. A Morte.

E se vivêssemos de tal forma inspirados, seguindo ao sabor do nosso coração, sempre no Aqui e no Agora, em entrega e deleite. Viver de tal forma que toda a ideia de morte nos passasse ao lado, tal seria o entusiasmo com que nos entregaríamos aos nossos dias, cheios de significado. E um dia, quando ela viesse, só pensaríamos: “Vivi bem. Sinto-me plen@. Posso partir serenamente.”

Porque ela viria assim, suave, ligeira, amorosa e com respeito. Respeito pela vida cheia que tinhamos vivido e orgulhosa por levar alguém tão belo no seu regaço. A sua chegada também seria assim: Bela.

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A Vida e a Morte não são forças antagónicas, opostos, mas antes, a Vida que é Vida, que é Sagrada, que é eterna, ela contém a Morte. E a Morte ela está ao serviço da Vida. Ela marca os ciclos. Os portais de passagem.

É por causa da Morte que a Vida é eterna. É fértil. É vasta.

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Acredito que somos Co-Criadores da nossa jornada e que sim, podemos fazer dela o que quisermos. Podemos escolher. Escolher a experiência. Então se quiseres aceitar esta sugestão que te dou: permite-te apaixonar pela tua Vida. Tu Mereces!; Abraça tudo o que está na tua Vida, inclusive a promessa da Morte. E para que sintas um pouco de paz no teu coração em relação a esse assunto, diz-lhe como gostarias de ir com ela e naquele desconhecido que é o lado de lá desse portal, coloca a tua intenção – que seja um momento de Amor, de Acolhimento, de Paz e de Serenidade. Que seja Belo.

E que Bela seja aquilo que eu torne da minha Vida.

Aurora

Fotografias Arquétipo de mim = Cemitério Central de Aveiro (1860)

2 Comments Add yours

  1. Julio Oliveira diz:

    Olá Lisa grande abraço de Luz. Muito interessante este teu artigo… ó eu não fosse conhecedor da matéria, contudo é aí em Aveiro que tb que está um amigo agente funerário que tem um espólio de praticamente tudo relacionado com a morte. É um colecionador conhecedor de tudo sobre a morte e ao mesmo tempo faz exposições onde mostra ao longo de centenas de anos o culto da morte. Interessante sem dúvida é nada é por acaso. Saudades de falar contigo… abraço de Luz

    Enviado do meu iPhone

    1. Obrigada Júlio 🙏 abraço luminoso

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