O post de hoje é retirado de um artigo de Vera Faria Leal, cujo trabalho sobre o “Sagrado Feminino” eu sigo com interesse. Trata-se da sua perspectiva sobre a simbologia do filme Maléfica, que anda a rolar nos cinemas. Já vi o filme e gostei muito da abordagem da história e da linda, fresca e verdadeira mensagem de Amor.  Aconselho. 😉

*********Contém Spoilers! Aviso para quem ainda não viu o filme.****************

No filme Maléfica, há dois mundos que coexistem, o dos humanos e o das fadas; o das fadas denota uma profunda comunhão entre toda a vida, a terra, a natureza. O patriarcado tentou suprimir a relação com a Terra, pois ela era cultuada como a Deusa no passado; quando estes valores femininos são suprimidos, os contos de fadas mostram-nos a princesa a dormir, que é uma metáfora para o “estarmos coletivamente adormecidos para a forma Yin de sentir e ver a vida, através dos olhos da imaginação. Quando a “princesa adormece” numa cultura, a energia feminina reprimida ou remetida para “o submundo/inconsciente” é reabsorvida em grande parte, sob a forma da vilã – as bruxas, as madrastas, a mãe má que nos quer amaldiçoar e matar. O filme Maléfica mostra como a dor da traição e do abandono forjaram as armaduras em redor do coração de uma mulher que antes, tinha amado muito. Mostra o início, provavelmente nunca antes revelado nos filmes da Disney.

O reino dos humanos cobiça a luxuriante vida do reino das fadas e um Rei ganancioso e decadente (representação dos valores yang imaturos do patriarcado) tenta invadir o “paraíso”. O herói, imaturo e sedento, como o nosso ego no início da jornada da vida, é o arquétipo do guerreiro, tão querido na nossa cultura, colocando a sua “causa” à frente do amor, com os fins justificando os meios. É assim que a natureza – lá fora e dentro de nós – tem sido traída, abandonada e contaminada pelos esforços “guerreiros” humanos, insensíveis ao valor sagrado da Vida.

Mas é caraterística da natureza aproveitar tudo para o bem maior de todos, com o mínimo dispêndio de recursos possível E assim, as tribulações provocadas pelas maldições da mãe má, levam-nos a enveredar pelo caminho onde vamos encontrar cura, sentido, sabedoria e consciência, pela dor que provoca. Maléfica é a fada madrinha não convidada para o batizado – o feminino temido e evitado pelo patriarcado, que sãos os referidos valores do sentimento, da imaginação, da intuição – cuja ação decisiva irá ajudar a princesa e a mim e a si – pelo encontro com a nossa própria sombra, a alcançar níveis mais profundos de integração e completude.

Maléfica, maravilhosamente interpretada pela muito talentosa Anjelina Jolie, é uma fada muito especial com poderosos chifres e asas gigantes; os chifres representam o poder espiritual dos chacras de topo ascendendo na direção do céu; como antenas sintonizadas com a dimensão espiritual. Os chifres de Maléfica representam o poder do crescente lunar (do yin), a sua força e poder generativos. As asas são outro indicador da sua natureza espiritual; ela é um espirito da natureza guardião da Terra.

Stefan, o herói/vilão, quando trai Maléfica, trai os seus valores femininos, torna-se num rei ferido – simbolizando as crenças patriarcais feridas, desintegrativas. Ao perder a conexão com o seu feminino interno, o seu instinto e sentir (simbolizado pelo afastamento com Maléfica) claro que enlouquece, pois esta amputação volta-se forçosamente contra ele! Não é a história do patriarcado, onde homens e mulheres como Stefan, se infligem a si e aos outros grande dano e desequilíbrio?

O corvo, animal totem em algumas tradições, que representa a capacidade de mudar de forma e a ligação à magia, torna-se o companheiro de Maléfica na forma de Diaval.

A princesa Aurora – nome que espelha o que ela representa, o nascer da nova vida feminina do sentimento – é deixada aos cuidados de 3 fadas “amigas do patriarcado” que representam o feminino desligado do corpo, dos instinto. Este feminino, em mulheres e homens é incapaz de tomar boa conta das crianças, como acontece na nossa sociedade; as fadas negligentes e auto absorvidas são substituídas, surpreendentemente ou talvez não, por Maléfica e Diaval. Esta é a única forma de curar o feminino ferido, resgatando a sua natureza e sabedoria essenciais.

Tudo se transforma quando Maléfica e Aurora se apaixonam uma pela  outra (e que bela cena, quando Maléfica/Angelina contracena com Aurora criança, sua filha na vida real! Angelina disse que foi a única criança que não teve medo de atuar com ela!).

 Mas a maldição daquela torna-se impossível de reverter, excetuando por um “beijo de verdadeiro amor”. Maléfica tenta salvar a sua amada Aurora levando o jovem príncipe ao seu leito – mas como é que um amor jovem, feito todo de projeções e expetativas, ainda não testado pela força da vida, pode ser “verdadeiro? Todos os que já nos apaixonámos (durante o tempo suficiente) sabemos isto. O amor verdadeiro é um caminho feito de mortes/espinhos, que nos centrifugam no caldeirão da transformação, de onde somos “cuspidos” quando a vida achar que estamos finalmente bem “cozidos” e de verdadeira valia, face ao que precisamos aprender. Nada é ao acaso, nada resulta fora do tempo, nada pode ser apressado, acelerado ou abreviado sem preços a serem pagos pelo atrevimento/imprudência.

É pois, o beijo de Maléfica que desperta a princesa Aurora – é o amor verdadeiro que só pode vir de um conhecimento da completude do outro, e da aceitação da Alma do outro. E é Aurora que salva as asas de Maléfica, liberando-a: o divino feminino só nos pode curar e ser curado através da nossa natureza e consciência femininas.

Aurora, o novo amanhecer, traz a cura do reino humano e a união deste com o reino das fadas. Pelo resgate do feminino ferido e do Divino feminino, essa cura e completude torna-se possível!

Está tudo dito.

( O artigo completo está disponível em VeraFariaLeal Blog )

Aurora Buzilis

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