“Bastaria as pessoas serem mais sinceras, honestas e humildes, que veríamos comportamentos maravilhosamente diversificados, personalidades espontaneamente interessantes, equívocos rapidamente resolvidos, decisões amplamente mais libertas, preconceitos instantaneamente eliminados e atitudes surpreendentemente menos egoístas.”

Friedrich Nietzsche

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“O essencial é saber ver, mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida, isso exige um estudo profundo, aprendizagem de desaprender. Eu prefiro despir-me do que aprendi, eu procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desembrulhar-me e ser eu.”

Alberto Caeiro

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“Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote – e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação.”

Introdução do livro Música para Camaleões, de Truman Capote.

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“Toco a tua boca. Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha. Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela.
E há apenas uma saliva e a penas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.”

in Rayuela, Jogo do Mundo de Julio Cortázar

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“Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso.

Possuo para sempre o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Penso em ti. Bebo fumo, mantenho-me atento, absorto – aqui sentado, junto à janela fechada.

Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe no horizonte acaba o corpo.

Recolho o mel, guardo a alegria e digo baixinho: apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge.”

in Lunário de Al Berto

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“A escrita torna-nos selvagens. Regressamos a uma selvajaria de antes da vida.
E reconhecêmo-la sempre, é a das florestas, tão velha como o tempo.
A do medo de tudo, distinta e inseparável da própria vida. Ficamos obstinados.
Não podemos escrever sem a força do corpo.
É preciso sermos mais fortes que nós para abordar a escrita, é preciso ser-se mais forte do que aquilo que se escreve.
É uma coisa estranha, sim. Não é apenas a escrita, o escrito, são os gritos dos animais da noite, os de todos, os vossos e os meus, os dos cães.
É a vulgaridade maciça, desesperante, da sociedade.”

in Escrever de Marguerite Duras

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“Quis revelar-me a mim mesmo, o mais aberta, nua e desavergonhadamente possível! Se me for perguntado porque quero fazer isso, tenho uma única resposta: é a que a minha natureza e o meu temperamento impelem-me para aí. Estou interessado na vida, em toda a vida, em todos os aspectos da vida. A vida que eu conheço melhor é a minha.”

in Cartas a Anais Nin de Henry Miller – tradução de Manuel João Gomes

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